Minha Seita defende a idéia: Não Matarás
Minha seita não tem crescido muito. Não tem glamour. É old-fashioned.
Paciência.
Mesmo com tão poucos sectários, não poderei ser um pregador no deserto. Não mato insetos. Nem para os comer, como fazia João Batista, mergulhando-os, crocantes, em mel silvestre.
Sou como um desses líderes de igreja que, devendo explicações para a polícia, dizem não matar nem passarinhos. Além de radicais defensores das criaturas do Criador, somos socialmente responsáveis e corretos. Não matamos.
Minha seita insiste em ser demodé. Penso em adotar um mandamento - direi que é Mandamento de Deus. "Não matarás." Alguns, mais simplórios, o acatarão, tenho certeza. Crédulos foram feitos para acreditar em tudo. Não matarão nem mosca, coitadinhos. Vou lhes prometer o Reino dos Céus como recompensa. Tudo ao contrário dos homens-bombas. Eles acreditam que, ao matarem e morrerem, herdam o paraíso. Nada disso. A minha seita prega que quem ama não mata. E amar é obrigação de todos. E a recompensa - insisto - é o paraíso.
Devo lembrar aos meus poucos seguidores que considerarei homicídio sentimentos não nobres em relação a outrem. Sou radical. Não será necessário matar o corpo de alguém. Basta querer lhe matar a alma, a vontade, os sonhos, a personalidade. Basta odiar. Será crime punível com a morte eterna. Alguém - não lembro quem - disse: "qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno." Concordo.
Minha seita não vai dar certo, sei. Hoje em dia ninguém se submeteria aos meus princípios.
Minha saída será decretar que matar não pode, mandar matar pode. É, talvez seja esta a saída para um crescimento mais rápido da minha seita. Tratarei de convencer os mais simplórios, ingênuos, tolos, crédulos, que mandar matar não é a mesma coisa que matar.
Como dizia o Zeca Diabo: "Eu não mato, não senhor. Eu aperto o gatilho, a bala faz um furinho, mas é Deus que mata."
Preciso deixar de ser radical. Assim a minha seita não cresce.



