terça-feira, 26 de junho de 2007

Minha Seita defende a idéia: Não Matarás

Minha seita não tem crescido muito. Não tem glamour. É old-fashioned.
Paciência.
Mesmo com tão poucos sectários, não poderei ser um pregador no deserto. Não mato insetos. Nem para os comer, como fazia João Batista, mergulhando-os, crocantes, em mel silvestre.
Sou como um desses líderes de igreja que, devendo explicações para a polícia, dizem não matar nem passarinhos. Além de radicais defensores das criaturas do Criador, somos socialmente responsáveis e corretos. Não matamos.

Minha seita insiste em ser demodé. Penso em adotar um mandamento - direi que é Mandamento de Deus. "Não matarás." Alguns, mais simplórios, o acatarão, tenho certeza. Crédulos foram feitos para acreditar em tudo. Não matarão nem mosca, coitadinhos. Vou lhes prometer o Reino dos Céus como recompensa. Tudo ao contrário dos homens-bombas. Eles acreditam que, ao matarem e morrerem, herdam o paraíso. Nada disso. A minha seita prega que quem ama não mata. E amar é obrigação de todos. E a recompensa - insisto - é o paraíso.

Devo lembrar aos meus poucos seguidores que considerarei homicídio sentimentos não nobres em relação a outrem. Sou radical. Não será necessário matar o corpo de alguém. Basta querer lhe matar a alma, a vontade, os sonhos, a personalidade. Basta odiar. Será crime punível com a morte eterna. Alguém - não lembro quem - disse: "qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno." Concordo.

Minha seita não vai dar certo, sei. Hoje em dia ninguém se submeteria aos meus princípios.

Minha saída será decretar que matar não pode, mandar matar pode. É, talvez seja esta a saída para um crescimento mais rápido da minha seita. Tratarei de convencer os mais simplórios, ingênuos, tolos, crédulos, que mandar matar não é a mesma coisa que matar.
Como dizia o Zeca Diabo: "Eu não mato, não senhor. Eu aperto o gatilho, a bala faz um furinho, mas é Deus que mata."

Preciso deixar de ser radical. Assim a minha seita não cresce.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Resolvi fundar uma seita

Resolvi fundar uma seita.
No mundo existem 6 bilhões de teólogos, teóricos ou praticantes, cada um com sua idéia de Deus e da religião que Deus mandou praticar. Resolvi criar uma seita para resolver o meu dilema existencial: a quem devo agradar? A quem devo aborrecer?

Minha nova seita já tem o seu próprio estatuto. Claro que não é original - nem pensar. Vivemos em um mundo cristão-evangélico-gospel-religioso-denominacional que nada cria.

A propósito, percebem como Deus revela aos estrangeiros (especialmente americanos) visões originais e só depois inspira os brasileiros ao plágio? Talvez porque Ele saiba que o Brasil aprecia uma boa pirataria.

Passo ao estatuto da minha seita recém fundada.

ESTATUTO DA SEITA POBRE, CEGO E NU

Art.1 NÃO julgueis, para que não sejais julgados.

§1º Com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.

§2º Por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?

§3º Como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?

§4º Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.

Art. 2 Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.

Art 3 Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.

§1º Aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á.

§2º Qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?

Art 4 Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.

Art 5 Entrai pela porta estreita;

§1º Larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.

Art 6 Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.

§1º Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus.

Art 7 Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.

§1º Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo.

Art 8 Pelos seus frutos os conhecereis.

Art 9 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

§1º Muitos me dirão a Jesus: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome?
E em teu nome não expulsamos demônios? e em Teu nome não fizemos muitas maravilhas?§2º Dir-lhes-á Jesus abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.

Art 10 Todo aquele que escuta estas palavras de Jesus, e as pratica, assemelhá-lo-á ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e descendo a chuva, e correndo os rios, e assoprando os ventos, e combatendo aquela casa, não cairá, porque está edificada sobre a rocha.

Art 11 E aquele que ouve estas palavras de Jesus, e não as cumpre, compará-lo-á ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e descendo a chuva, e correndo os rios, e assoprando os ventos, e combatendo aquela casa, cairá, e será grande a sua queda.

Estes são os primeiros 11 artigos da minha nova seita.

Agora, procuro sectários. Agora, quero seguidores.

Devo confessar que ainda não consigo cumprir todas as exigências da minha nova seita, mas estou me esforçando!

Meus sectários precisam saber que se trata de um longo processo.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Eu sou o Homer Simpson

Todos conhecemos "Os Simpsons". Embora o programa de desenho animados retrate a família média americana (do norte, os estadunidenses), não há como não nos identificarmos com eles. O chefe da família Simpson é o Homer. Trabalhador desleixado, empregabilidade próxima do zero, pai e esposo omisso, glutão, beberrão e televisivo maníaco, engorda o traseiro sentado relaxadamente em sua poltrona predileta, enquanto seu polegar zapeia freneticamente o controle remoto.

Pois, como grande parte dos americanos, os Simpsons são evangélicos (protestantes, talvez fosse melhor dizer, em oposição a "cristãos católicos") e as crianças freqüentam a escola bíblica, às vezes.
Qual a diferença entre Homer e seu patrão, o capitalista-selvagem-sem-escrúpulos-totalmente-sem-responsabilidade-social-e-ambiental , o Senhor Burns? Nenhuma.



Cada um deles tem seu estilo de vida e, a seu modo, a mesma fé (o Sr. Burns também é protestante) o que denotaria valores morais e éticos iguais. Não são.

Homer e o Sr. Burns têm, cada qual, sua visão de mundo, o que incluiria relacionamento com Deus. Sim. Eles têm um relacionamento com Deus. Homer, menos polido, ataca a Deus por suas mazelas familiares e sociais, sem rodeios. Burns agradece sua prosperidade a Deus e se vê meritoriamente recompensado por ser, a seus próprios olhos, bom e competente nos negócios. E quer mais. Muito mais.

Eu sou o Homer. Não tenho as riquezas do Sr. Burns, minhas preocupações e anseios não são os mesmos de quem tem fortuna.

Como o Simpson, acho que meu relacionamento com Deus está indo de vento em pôpa. Como ele, minha porção física reclama por uma poltrona aconchegante, uma lata de cerveja Duff e rosquinhas açucaradas (donuts). Como o pai de Bart, Lisa Marie e Maggie, preferiria o dolce far niente em frente à TV a me preocupar com as coisas do meu local de trabalho e de como dar o melhor de mim para merecer meu salário (o único salário que não quero merecer é a morte).

Como o marido da Marge, gostaria de deixar as responsabilidades de provisão e manutenção da casa para amanhã, dedicando-me um pouco mais ao ócio. Esquecer-me de Deus até que me meta outra vez em encrenca quando, então, O buscarei. Do meu jeitão ("Eu sei que você esta aí, Super Homem!). Imputando-Lhe as culpas pelos meus fracassos (sempre fico em dúvida se culpo a Deus ou ao Diabo) e Lhe obrigando a soluções rápidas para meus problemas.

Eu sou o Homer Simpson. Tenho uma família, um emprego, colegas de trabalho, um cãozinho. Admito Deus. Não tenho tempo para me dedicar a nenhum, mas sei de Sua importância. Um dia, quando - e se - puder, me entregarei extravagantemente a cada um deles. Merecem minha atenção, mas coisas tão imediatamente deliciosas e recompensadoras se antecipam! Um sofá, uma TV ligada, uma lata de cerveja, donuts, uma soneca na rede.


Eu sou muito parecido com Homer Simpson.